Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011
"não te preocupes com os teus" 1#

 mês de Julho tinha sido apagado como uma vela, 

por um vento cortante que anunciava Agosto.

 

Em Nice, ao longo da estrada junto ao mar, as cabanas 

voltavam o seu rosto de madeira inexpressivo, para

o mar azul-esverdeado coberto de espuma, que batia suavemente

contra os areais infinitos. 

Aquele era o género de clima que para testar os limites de qualquer um.

Em relação a mim e ao meu humor, não haviam noticias alegres (...)

Tínhamo-nos tornado cada vez mais irritáveis ao longo das férias.

 

Por momentos, tinha repensado em algumas coisas, em relação

ao mês de Setembro. Setembro, o inicio relutante das aulas e 

a altura do ano em que a minha idade aumenta eternamente.

Lembrara-me também de como uma acção minha, podia ter um enorme impacto.

 

Como de costume, conhecera, nesta férias, uma rapariga á qual me afeiçoara

bastante.

Era ruiva, com umas quantas sardas e com uns olhos imensamente profundos, 

com cor vulgar.

O seu vocabulário era excepcional, o que me dava uma enorme vontade de

interrogar sobre o significado de imensos adjectivos, que usara milhares de 

vezes.

 

No entanto eu sabia que algo de maléfico a conduzia. 

Apesar da excelente rapariga que era, coberta de boa educação ela receava

sempre o pior, pelo menos em relação ao que sabia dela.

 

A nossa amizade foi crescendo, pelo menos visto a meus olhos;

aquela ruiva cheia de manias, era inconscientemente como uma irmã para mim.

 

Uma das suas particularidades era a insistência em acentuar as terminações (das palavras),

o que me influenciou bastante nas ultimas semanas.

Quando dei por mim prenunciava palavras caras com significados enormes. 

Dizia inúmeras vezes adjectivos terminados em -imo e usava sempre o Grau Superlativo.

Era hábito ouvirem-me a dizer: 

«este campo é, dentro dos possíveis, pobríssimo e acima de tudo frigidissimo». 

seguido 

de uma acentuação dela:

 

«Diria mesmo paupérrimo. Como é possível existir vida neste lugar,

situado no cordial país em 

que nos encontramos? França!»

 

 

Não digo que estou desiludida, mas visto por um lado (praticamente invisível), 

apercebi-me que mais do que a postura e a forma de pronunciar as palavras, 

tornara-me agora neutra. Desmedidamente neutra. 

o por enquanto seria (quase) a sua seguidora, 

mas RELEMBRE-ME que eu não vivo em França nem em Itália, vivo 

calmamente num pais tristíssimo (lá estou eu outra vez) ao qual ditam o

"O País do Fado e do galo de Barcelos" ,

esse mesmo Portugal (...)

 

    Julgam-me uma rapariga de alta cultura, que vive na Irlanda (talvez),

mas não passo de uma Alma Lusitana. 

 

 

 





publicado por annacatarina. às 09:53
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.pensamentos dispersos, dores profundas e decisões duras. ∞

uma corrente que inconscientemente vai destruindo familias, sonhos e um pouco de tudo. quando a nossa maior certeza é de que não estamos certos de nada, agir habilmente e calmamente pode (não) ser a solução.

os três que ficam e os três que vão. e tu, tens a certeza de quem protegerias?


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