Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011
"não te preocupes com os teus" 6#

   Agosto aparentava-se agora gélido e de partida, Setembro preparava a  sua bagagem (e com ele vinham as chuvas, as aulas e as desilusões), para retornar. Tanto eu como quem me acompanhava sabe que aguardo o nono mês do calendário de uma forma surreal, por todas as razões e mais algumas (...)

   As formas de contactar com Mafalda eram já por si poucas, ainda menos com a morte do seu pai. As notas mentais que anotava com o passar dos dias deixavam-me ainda mais confusa; « quem seriam os ''meus'' a que Mafalda se referia?»

    Por meus posso classificar amigos, ou familiares, ou ambos? Aclarei as ideias ligando-lhe e pedindo esclarecimentos egoístas, acerca dos meus, sem qualquer formalidade. Ainda com a sua voz em luto confundia-me os sentidos e esclarecia-me as ilusões. Pedi-lhe detalhes, nomes e graus de parentesco.

 

- Quem indica os mais preciosos e os mais importantes és tu, somente tu.- disse Mafalda num tom firme.- O que queres dizer com isso? Que tenho lugar guardado para quem amo de verdade.- interroguei eu, chocada.- Tens 3 lugares privilegiados para os teus.- Sê clara Mafalda, só posso amar 3 pessoas?.- NÃO!.- afirmou ela agilmente.- Queres que seja realmente clara? eu vou sê-lo .- continuou.-O meu pai não morreu.-Ai não?.- Não, foi morto!.- Mas... .- interrompi.- Alguém o matou, não sei quem. Mas a chamada que recebi, á dias de um colega de turma, ditou a sua morte. Fiquei como tu, curiosa, confusa e entre nomes de quem realmente me pertence. Decidi proteger os que necessito, como o ar que respiro, entre os 3, o meu pai não era um deles o que marcou a sua morte.- oh meu deus.- dizia ela quase em silêncio.-não fiques assim, não penses já em suicídio, o aspecto que transpareces ainda é importante.- tu perdes-te um (dos muitos) que amas e estás a revelar-te uma insensível.- disse eu num tom pouco nervoso.- esse teu eempático limite está a exceder-se. Devias tentar ouvir-me e só depois julgar a sustentável capa que trago vestida.- e então?.- então? ridiculamente decidi proteger o meu irmão, a minha mãe e a minha empertigada irmã.- e eu?.- perguntava, preocupada.- tu o quê? .- eu vou morrer? .- não muito pelo contrário, vais ter que escolher os 3, que amas irreflectidamente.- e depois.- depois tens de ligar a alguém da tua idade com quem mantenhas uma ligação recente.- continuava a ruiva.- e porquê eu?.- talvez por seres a única egoísta que (parcialmente) me transformou em alguém razoavelmente renovada e dependente de ti, e das nossas caminhadas junto ao leito do rio.- egoísta?.- sim, mostras-mo em cada palavra que contrapões.- ai sim? devias ter dado esse conceito a uma britânica que morasse numa moradia, cor-de-morango.- estás a filosofar?.- interrogava.- então fica sabendo que esse teu cabelo meticulosamente feito de chocolate macio, me deixa a desejar horrores.- continuou.- Oh querida Mafalda...- retorquiu a morena, julgando-se um demiurgo.- tens a certeza que preferes antecipar o teu cadenciado motivo e gastar o pouco de requinte que te ofereci, deixando no ar o porquê de seres tu e quem será o próximo da corrente? .- tu e o teu requinte... em situações destas deixas a tolerância de qualquer um a zeros, fazendo de ti um ser ridículo.- então fica sabendo que este ser, ao qual dizes abranger na perfeição um demasiado lado ridículo, te deixa por instantes numa situação que te sequestra o fôlego, não é verdade?.- disse a rapariga com o cabelo cor de raposa, de forma rude.- Não devido á ridicularidade da situação, mas sim pela forma de como desempenhas cautelosamente o papel que te atribuíram.- se fosse um papel eu teria permitido que a excitação se alastra-se pela minha face, em tons de vermelho-vivo!- e agora?.- interrogou de um modo informal.- agora contrata um cérebro para que escolha os 3 que são agilmente teus.- é só?.- não, veste também uma camisa branca e calça uns sapatos cor de mel e liga ao próximo, da lista.- Que encanto.- pronunciava eu, com ironia.- Não é nenhum encanto, é um absurdo, mas foi a ti que o rasto destruidor de vidas, decidiu roubar a existência.- a mim? mas eu vou morrer?.- não! pelo menos, não por agora. a mim roubou-me um pedaço, quanto a ti? defende os teus e não te preocupes com eles.

 

 




publicado por annacatarina. às 09:33
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.pensamentos dispersos, dores profundas e decisões duras. ∞

uma corrente que inconscientemente vai destruindo familias, sonhos e um pouco de tudo. quando a nossa maior certeza é de que não estamos certos de nada, agir habilmente e calmamente pode (não) ser a solução.

os três que ficam e os três que vão. e tu, tens a certeza de quem protegerias?


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